A Polícia da Memória
"O que podem as pessoas da ilha criar?", continuei. [...] Coisas pobres e falíveis, que nunca substituirão as que estão a desaparecer - nem a energia que as acompanha. É um processo subtil, mas que parece estar a acelerar-se, e precisamos de ter cuidado. Se tudo continuar assim e não conseguirmos substituir as coisas que se perdem, em breve a ilha ficará reduzida a ausências e lacunas, e, quando estiver completamente esvaziada, todos nós desapareceremos sem deixar vestígio.
Yoko Ogawa, A Polícia da Memória
Ultimamente, chego a casa, janto e de seguida leio. Não me deixo cair em frente ao computador, não agarro o smartphone. Simplesmente, seguro num livro físico, sento-me numa cadeira confortável mas estável e bebo uma caneca de chá quente. Este pequeno ritual traz-me uma paz que mais nada de quotidiano me tem trazido e pela qual estou grato. O livro que me tem acompanhado até agora é A Polícia da Memória, da escritora japonesa Yoko Ogawa.
A história seria com toda a certeza um verdadeiro pesadelo para Marcel Proust, o meu escritor favorito. A famosa cena da madalena molhada no chá serve para ilustrar isto. Para Proust, de uma forma muito bergsoniana, a memória é a ponte entre a matéria e o espírito. O sabor da madalena contém em si toda uma realidade interior há muito esquecida. Muitas vezes, o passado, ou seja, aquilo que nos faz quem somos, está escondido "[...] em algum objecto material (na sensação que esse objecto material nos daria) de que não suspeitamos."
Em A Polícia da Memória, a narradora vive numa distopia em que a cada dia, ao acordar, a memória de algo poderá ter desaparecido completamente. Chapéus, pássaros, rosas - com o tempo a memória de certos objetos vai desaparecendo em quase toda a gente. Suspeita-se que isto seja causado pela titular Polícia da Memória que, após cada desaparecimento, se encarrega de verificar que todos os objetos em si sejam destruídos e que todas as provas de que tais objetos tenham alguma vez existido sejam apagadas. Esta tarefa não é apenas cumprida pela Polícia da Memória, mas pela maioria da população. E com bastante indiferença.
Afinal, um objeto ao qual somos incapazes de ter qualquer memória associada é quase um objeto que não existe. É um objeto sem nome, sem significado, um vazio. É este vazio que leva as pessoas, inclusive a narradora, a facilmente se verem livres de todo o tipo de objetos, por mais queridos que outrora lhes pudessem ser. É um vazio que suscita apatia, talvez até um certo desconforto. Motivo pelo qual certas pessoas parecem ficar até felizes em desfazerem-se das coisas depois de um desaparecimento. É na verdade, um vazio, não físico, mas espiritual.
É possível interpretar esta obra como uma crítica ao totalitarismo numa linha semelhante ao 1984 de Orwell, ou ser ainda mais literal ao associá-la a doenças neurodegenerativas como o Alzheimer. Atrevo-me até a sugerir que talvez tenha a ver com as inúmeras e acentuadas mudanças culturais no Japão no último século. Mas, para mim, é impossível ler este livro como outra coisa que não uma crítica à era da informação e do consumismo.
Que história têm os móveis do IKEA, todos iguais e produzidos em linha? Não são herdados de um familiar, não têm um único defeito na sua superfície perfeita de contraplacado, apagando todos os vestígios de que um ser vivo foi morto para os fabricar. Também a roupa na cultura do fast fashion produz objetos sem significado semelhantes aos da narrativa de Ogawa, e tal como nela as pessoas se desfazem rapidamente deles. Não sei porquê, suspeito que uma lata de Coca-Cola não me suscitará a mesma sensação que a madalena e o chá ao narrador de Proust...
No fundo, quanto menos memória guardam as coisas que possuímos, menos significado têm elas para nós, e mais espaço vazio deixam nos nossos corações. Daí o desejo insaciável associado ao consumismo: estamos vazios porque desejamos que coisas vazias nos completem. O afeto, o apego e a segurança só são possíveis quando a memória serve de ponte entre o material e o espiritual. Mesmo o corpo de uma pessoa ou de um animal amados só nos preenchem de ternura após o reconhecimento. Mesmo a cara de um estranho só nos provoca empatia quando nos apercebemos de algo familiar, algo humano.
Se ainda não fui direto o suficiente, com isto quero dizer que não há grande diferença entre a Polícia da Memória e o sistema neoliberal. A "economia", esse fantasma que nos assombra todos os dias, só ganha com a perda da memória. Não se trata de uma afirmação reacionária. Trata-se de chamar a atenção para o facto de que os laços que nos unem uns aos outros e ao mundo estão a sofrer uma terrível erosão. A nossa identidade está cada vez mais fragmentada e as nossas mentes cada vez menos sãs.
As tecnologias da informação são talvez as armas mais poderosas da Polícia da Memória tal como ela se apresenta no nosso mundo. A informação que consumimos diariamente nos nossos ecrãs é algo que flui incessantemente e se desvanece tão rápido que não damos por ela. Quantas vezes pegamos no nosso telemóvel durante longos períodos de tempo e ao pousá-lo finalmente nos apercebemos de que não nos lembramos de nada do que vimos ou fizemos?
São precisas memórias para criar sentido nas nossas vidas. E para criar memórias, é preciso tempo. Porquê gastar de forma voluntária o nosso tempo em atividades que não nos permitem criar memórias? Para muitas pessoas, infelizmente, esse é já o mundo do trabalho. Porquê submeter o nosso tempo de ócio a esse vazio?
Ao sentar-me na minha cadeira com o meu livro e o meu chá, sinto-me parte do mundo. Sinto-me situado no tempo e no espaço através da memória, e por isso seguro. A qualquer momento posso fechar o livro e sei que quando o voltar a abrir, o mesmo mundo vai estar à minha espera. Os ecrãs do quotidiano, pelo contrário, são janelas que nunca podemos fechar, e que nos mostram uma (ir)realidade completamente imprevisível que depressa cai no esquecimento. Não só nos impedem de criar memórias verdadeiras, como nos fazem entrar num transe em que nos esquecemos das que já temos.
Convido-vos a encontrar momentos, por mais pequenos que sejam, que vos permitam lembrar ou criar memórias. A leitura deste livro foi certamente um desses momentos para mim.